Rashomon, Ego, Id e Superego

Assistir a este filme de Akira Kurosawa, Rashomon, de 1950, exige do expectados uma certa dose de atenção e esquecimento das modernas tecnologias cinematográficas. Atenção porque toda a narrativa se dá em flash back (algumas em flash, dentro de flash) e esquecer as modernas tecnologias… Bom, o filme foi rodado em 1950, quando edição e composição computadorizada sequer era imaginada como possibilidade. O que se vê é o resultado bruto, em toda a sua beleza, daquilo que realmente ficou registrado na fita de celulóide.

O enredo gira em torno de um assassinato e um estupro. Kurosawa dirige o filme de modos a conduzir o espectador a um grande impasse: onde afinal está a verdade? Por jogos de afirmativas e contraditórios os protagonistas e as cenas vão compondo um clima de exaustão da lógica. A verdade se mostra e se esconde, luzes e trevas se alternam e se confundem uma com a outra. O amor e o ódio se unem, o primitivo e o sofisticado se encontram e se conformam como faces de uma mesma moeda.

O filme, merece ser visto (e revisto). Nele, para além da exuberante técnica, pode-se ver uma verdadeira explosão dos sentimentos humanos e das mais puras manifestações daquilo que Freud definiu como Ego, ID e Superego. Ponha-se atenção nos três grandes cenários: o portal da cidade, o tribunal e a floresta.


A sindrome de Simon

Juntando as inciais das palavras solteiro, imaturo, obsessivo e narcisista, o psiquiatra espanhol, Enrique Rojas, criou a palavra SIMON para identificar e descrever uma sindome de nosso tempo: A “sindrome de Simon”.

Tal sindrome aparece, nos homens – segundo Rojas -  por volta dos 28 a 38 anos. Os tais são  solteiros; imaturos do ponto de vista sentimental, obsessivos com o exito laboral e narcisistas.

Vamos à exposição do psiquiatra para cada uma dessas variáveis (em tradução livre e compactada.) O texto original, em espanhol, pode ser lido AQUI.

Solteiro.
Para muitos, a “solterice” é como um imóvel no centro de uma grande cidade: sempre terá um comprador interessado e à medida que o tempo passa mais se valoriza. Muitos destes jovens, entrincheirados em sua solteirice, se exibem e desfilam – para as jovens – na passarela dos que “estão livres”a fim de conquistar a “mais dificil” e exibi-la como um troféu. Algumas observações: Só quem é realmente livre é capaz de comprometer-se. Ser capaz de perder a “solterice” por um amor forte, sólido, atraente, sugestivo, indica vida, forte capacidade para o risco e vitalidade.

 Imaturidade dos sentimentos.
Os sentimentos são estado de ânimo, positivo ou negativo que nos impelem a aproximar ou afastar do objeto que aparece diante de nós. Os sentimentos são a “via regia” da afetividade, o caminho mais frequentemente conhecido e percorrido. Leibnitz, dizia que tout sentiment est la perception confuse de une verite, todo sentimento é percepção confusa da verdade. O sentimento é a forma habitual e ordinária de viver os afetos. São conjuntos informativos que nos orientam na vida. São uma uma via de conhecimento e um termometro de nossa vida privada. Ora, o principal sentimento é o amor e este se abre como um leque, repleto de matizes: amar, desejar, querer, sentir-se atraido, buscar, necessitar, estar todo o dia pensando em alguém. Ter maturidade sentimental signfica ser capaz de estar aberto a dar e receber amor, à possibilidade de descobrir outra pessoa a quem entregar o mapa do tesouro escondido, dando-se por inteiro a ela e elaborar um projeto comum.

Enamorar-se é criar uma mitologia privada com alguém. Na “sindrome de Simón” encontramos pessoas que podem ter uma adequada maturidade profissional, mas sem maturidade afetiva: não sabem o que é o mundo sentimental, não sabem expressar sentimentos, não sabem que o amor é um trabalho de artezanato psicológico, desconhecem que os sentimentos devem ser trabalhados com dedicação e esmero, senão volatizam.

Multiplicam-se os homens que assumem o seu terror pelo compromisso para com outra pessoa. A sociedade atual fabrica cada vez mais homens imaturos, que vivem centrados em seus trabalhos, em seus amigos.

Obsessão pelo exito.
A prioridade dessas pessoas é fundamentalmente encontrar uma posição econômica adequada, sacrificando tudo por isto.

Narcisismo
O narciso é uma planta exótica com folhas longas, estreitas e pontiagudas que cresce nas margens dos lagos e se inclina em direção à agua, como que olhando-se, admirando-se. Narcisista é todo aquele que tem um preocupação desordenada para consigo mesmo. Tem excessiva necessidade de reconhecimento pelos que o rodeia. Surge, então, o complexo de superioridade: que é um sentimento que faz o sujeito se veja acima dos demais.

Esta tetralogia, solteiro, imaturo, obsessivo e narcisista, constitui uma sinfonia de instrumentos desafinados, um tipo de homem que construiu sua personalidade com materiais de pouca solidez.

O que temos então é cada vez mais mulheres desencantadas com tais tipos de homens e que dizem: “procuro um homem que venha com os deveres feitos, não um adolescentes a que tenho que educar como se fosse sua mãe”.

Padece você da “Sindrome de Simon”?


A história do movimento psicanalítico

Freud, Sigmund: A história do movimento psicanalítico – São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Os Pensadores).

Resumo

Embora este seja um texto de “combate”[1], ou talvez por tal razão, percebe-se o esforço didático de Freud. Esforço exitoso, posto que expõe e aclara, com segurança e simplicidade[2], algumas das principais descoberta da Psicanálise, os processos que levaram a tais descobertas e as organiza na linha do tempo histórico.
Ciente do tributo que deve a outros estudiosos, seus contemporâneos, como por exemplo Breuer, Freud explica, por exemplo que a passagem do cartático  para a associações livres marcou o inicio da Psicanálise e foi uma descoberta sua. Como também a teoria da repressão e da resistência, o reconhecimento da sexualidade infantil e a interpretação e exploração de sonhos como fonte de conhecimento do inconsciente. Destas importantes descobertas Freud destaca a Teoria da Repressão e a considera  “a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da Psicanálise” (p.46)
Após sua exposição sobre a descoberta e características daqueles grandes conceitos da Psicanálise Freud, se interroga sobre as razões que poderiam estar na base das grandes deserções e de certos conflitos conceituais. Identifica algumas forças externas mas não deixará de incluir a formação psicanalítica, reconhecendo que havia grandes dificuldades no seu ensino e prática e que, era inegável,  tais dificuldades jogavam um papel relevante nas dissensões. Mas, diante dos sucessos obtidos pela psicanálise em outros campos, reconhece que “as teorias da psicanálise não podem ficar restritas ao campo medico, mas são passiveis de aplicação a várias outras ciências mentais” (p.54).
A parte mais estendida e detalhada desta “história” é dedicada – como é de se esperar – a anotações sobre os sucessos e insucessos, no tempo, do movimento psicanalítico. Assim, Freud faz um inventário sobre lugares, sociedades, grupos de estudos que se foram formando, suas características, suas peculiaridades, suas contribuições e tensões em busca de um saber unitário e coerente. Saber que não se confunde com a formação de um sistema. Idéia que repugna a Freud ao percebê-la, por exemplo,  na obra de Adler. Mas esta recontagem histórica tem uma finalidade concreta: preparar e conduzir o  leitor para o confronto com as duas mais importantes rupturas no movimento psicanalítico: Alfred Adler e  Carl G. Jung.
Entre outras divergências, Adler e Jung – por distintas razões – consideravam que Freud superestimava a postulação de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual.
Por ironia ou para realçar seu método de análise, Freud escreveu: “não posso abster-me inteiramente de utilizar os conhecimentos psicanalíticos no exame desses dois movimentos de oposição” (p.71) e por esse caminho segue, apontando os desvios – sob sua ótica -  que estes dois introduziram na psicanálise. Curiosamente ele recusa o caráter “sistemático” das teorias Adlerianas (p.73), e ao mesmo tempo, utilizando as críticas de Abraham, Ferenczi e Jones, concordará que a teoria desenvolvida por Jung é “tão obscura, ininteligível e confusa a ponto de se tornar difícil assumir uma posição em relação a ela.” (79). Talvez seja esta uma das razões que levou Freud a estender-se mais na análise do “sistema” adleriano sem deixar, contudo, de dar a sua impressão sobre os escritos de Jung de forma contundente: “as modificações que Jung propôs que se fizessem na psicanálise decorrem todas de sua intenção de eliminar o lado reprovável dos complexos familiares para não voltar a encontrá-lo na religião e na ética.” (p.81)
Freud encerra esta sua “história” com uma bem elaborada ironia retórica:... Para concluir, escreveu, “quero expressar o desejo de que a sorte proporcione um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acham a estada no submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que ficamos, desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas.” (p.84)


[1] Freud escreveu esta história com a finalidade de estabelecer claramente os postulados e hipóteses fundamentais da psicanálise em oposição `as formulações teóricas de dois de seus ex colaboradores: Adler e Jung, as quais considerava incompatíveis com as da Psicanálise.
[2] Sem ceder a simplificações.

Bom para você, não para mim


Escrever sobre a homossexualidade é uma tarefa complicada. Qualquer afirmação, ou negação, mal entendida e ... desaba uma série de impropérios dentre os quais, os tão em voga, "homofóbico" ou "gayfilico". Nesta área tudo parece conspirar para uma visão dualistica: o sim e o não ; o claro e o escuro; o dia e a noite. Sabemos, contudo, que não é assim. Sabemos que esta forma de encarar os fenômenos humanos, entre eles a sexualidade, bem pode ser uma "estratégia" para evitar-se maiores aprofundamentos.

Vale a pena lembrar que a American Psychological Association (APA), a mesma que pressionou a OMS para a retirada da homossexualidade do rol das doenças classificadas, em 1998 acatava a determinação genética, contudo, a partir de 2008, em uma espécie de "atualização", passou a reconhecer que não se pode explicar ou compreender a homossexualidade como resultante de um determinado fator preponderante. Ademais, Freud, em "Três ensaios sobre a sexualidade" já afirmara que a sexualidade é construída sobre uma base orgânica e para tal construção concorrem múltiplos fatores. Recentes pesquisas com gêmeos univitelinos, por seu lado, reforçam a compreensão de que não se pode falar, sem mais, em uma "homossexualidade genética".

A homossexualidade, como é sabido, é uma realidade humana e pouquíssimas são as civilizações que não a conheceram. Não se trata, portanto, de algo novo, próprio do nosso tempo. O que é novo, isto sim, é a formas de lidar e conviver com ela, ou na terminologia da Psicologia Social: suas representações. Hoje, fico com uma pesquisa divulgada pela Gazeta do Povo (Curitiba) no último domingo (8/11/2009).

O título da matéria é: "O maior preconceito está dentro de casa". Pois bem, os gráficos apresentados mostram que 57% da população investigada "é contrária ao casamento entre iguais sexos e, curiosamente, há um empate quando o tema é adoção de crianças por casais gays (45%/47%). Quando, porém, a pergunta recai sobre algo mais corriqueiro, como por exemplo, o beijo entre casal homossexual, obteve-se que 63% consideram uma atitude repugnante.
Um outro achado da pesquisa, do qual retirei o título para esta postagem, refere-se ao tipo de reação dos entrevistados diante da descoberta da homossexualidade de outrem. Contratariam um homossexual 68%; não contrataria, 25%. O que faria se descobrisse a homossexualidade de seu amigo: 26% apoiaria, 53% ficaria indiferente e 13% tentaria muda-lo. O panorama muda se em lugar de um amigo for um familiar: 33% responderam que tentaria muda-lo.


A pesquisa também mostrou que 81% das pessoas acreditam que os pais são os últimos a saber e os três principais motivos que levam os filhos a não revelarem a sua homossexualidade aos pais são a vergonha (43%), o medo (36%) e o receio de decepcionar (33%). Motivos que merecem estudos e comentários a parte, posto que são percebidos como expressões de um só e principal motivo: "homofobia internalizada". Será?