Freud, Sigmund: A história do movimento psicanalítico – São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Os Pensadores).
Resumo
Embora este seja um texto de “combate”[1], ou talvez por tal razão, percebe-se o esforço didático de Freud. Esforço exitoso, posto que expõe e aclara, com segurança e simplicidade[2], algumas das principais descoberta da Psicanálise, os processos que levaram a tais descobertas e as organiza na linha do tempo histórico.
Ciente do tributo que deve a outros estudiosos, seus contemporâneos, como por exemplo Breuer, Freud explica, por exemplo que a passagem do cartático para a associações livres marcou o inicio da Psicanálise e foi uma descoberta sua. Como também a teoria da repressão e da resistência, o reconhecimento da sexualidade infantil e a interpretação e exploração de sonhos como fonte de conhecimento do inconsciente. Destas importantes descobertas Freud destaca a Teoria da Repressão e a considera “a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da Psicanálise” (p.46)
Após sua exposição sobre a descoberta e características daqueles grandes conceitos da Psicanálise Freud, se interroga sobre as razões que poderiam estar na base das grandes deserções e de certos conflitos conceituais. Identifica algumas forças externas mas não deixará de incluir a formação psicanalítica, reconhecendo que havia grandes dificuldades no seu ensino e prática e que, era inegável, tais dificuldades jogavam um papel relevante nas dissensões. Mas, diante dos sucessos obtidos pela psicanálise em outros campos, reconhece que “as teorias da psicanálise não podem ficar restritas ao campo medico, mas são passiveis de aplicação a várias outras ciências mentais” (p.54).
A parte mais estendida e detalhada desta “história” é dedicada – como é de se esperar – a anotações sobre os sucessos e insucessos, no tempo, do movimento psicanalítico. Assim, Freud faz um inventário sobre lugares, sociedades, grupos de estudos que se foram formando, suas características, suas peculiaridades, suas contribuições e tensões em busca de um saber unitário e coerente. Saber que não se confunde com a formação de um sistema. Idéia que repugna a Freud ao percebê-la, por exemplo, na obra de Adler. Mas esta recontagem histórica tem uma finalidade concreta: preparar e conduzir o leitor para o confronto com as duas mais importantes rupturas no movimento psicanalítico: Alfred Adler e Carl G. Jung.
Entre outras divergências, Adler e Jung – por distintas razões – consideravam que Freud superestimava a postulação de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual.
Por ironia ou para realçar seu método de análise, Freud escreveu: “não posso abster-me inteiramente de utilizar os conhecimentos psicanalíticos no exame desses dois movimentos de oposição” (p.71) e por esse caminho segue, apontando os desvios – sob sua ótica - que estes dois introduziram na psicanálise. Curiosamente ele recusa o caráter “sistemático” das teorias Adlerianas (p.73), e ao mesmo tempo, utilizando as críticas de Abraham, Ferenczi e Jones, concordará que a teoria desenvolvida por Jung é “tão obscura, ininteligível e confusa a ponto de se tornar difícil assumir uma posição em relação a ela.” (79). Talvez seja esta uma das razões que levou Freud a estender-se mais na análise do “sistema” adleriano sem deixar, contudo, de dar a sua impressão sobre os escritos de Jung de forma contundente: “as modificações que Jung propôs que se fizessem na psicanálise decorrem todas de sua intenção de eliminar o lado reprovável dos complexos familiares para não voltar a encontrá-lo na religião e na ética.” (p.81)
Freud encerra esta sua “história” com uma bem elaborada ironia retórica:... Para concluir, escreveu, “quero expressar o desejo de que a sorte proporcione um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acham a estada no submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que ficamos, desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas.” (p.84)