Meditando com São Bernardo de Claraval


Nós somos carnais, nascidos da concupiscência da carne; donde se segue necessariamente que nosso amor, bem como nossa cupidez, começa pela carne. Porém, se este amor é bem dirigido, desenvolvendo-se progressivamente segundo seus graus, sob a ação da graça, ele atingirá sua perfeição no espírito, "pois não é o espíritual que precede, mas o que é animal: o espiritual vem em seguida" (cf. 1Cor 15,40).
Portanto, o homem começa amando a si mesmo por si mesmo; pois, sendo ele carne, está fora de condição de degustar o que quer que seja fora de si mesmo. Refletindo, em seguida, que não pode subsistir por si só, ele começa a procurar a Deus na fé e a amá-lo. É o segundo grau: ama-se a Deus não por Ele mesmo, mas por causa de si.
À medida que a própria necessidade leva a conviver com Deus, a familiarizar-se com ele, pensando nele, lendo e pedindo-lhe e servindo-o, aos poucos a gente o descobre nessa familiaridade e começa-se a apreciá-lo. Quando se aprendeu, assim, a degustar como o Senhor é doce, passa-se ao terceiro grau, que consiste em amar a Deus por ele mesmo, não mais por causa de si.
E neste grau, permanece-se muito tempo; não sei se, nesta vida, alguém pode alcançar a perfeição do quarto grau, de modo que não se ama mais de forma alguma, senão em Deus. Que o afirmem os que o experimentaram; quanto a mim, confesso que acredito ser impossível. Sem dúvida alguma, isto se verificará quando o servo bom e fiel for introduzido na alegria do seu Mestre, inebriado com a plenitude da Casa de Deus. Então, esquecendo-se, ele próprio, de uma maneira admirável, voltar-se-á todo inteiro para Deus e, aderindo a ele para o futuro, não formará senão um só espírito com Ele. (De diligendo Deo, XV)

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